04 julho 2008

Big Brother S/A



"La justicia, la igualdad del mérito, el trato respetuoso del hombre, la igualdad plena del derecho: eso es la revolución."
José Martí



Vou Caminhando

Vou caminhando
Sorrindo, cantando
Meu canto e meu riso
Não são pra enganar

Quem vem comigo
Bem sabe o que digo
Que há muito motivo
Pra gente chorar

Mas se lastimar
De nada vai valer
Já vi mãe chorar
Criança não crescer

Um menino que morreu
Um pai que em vão padeceu
Pela vida vou lembrando
Que lembrando espero eu

E vou caminhando
Sorrindo, cantando
Até que um dia.

Geraldo Vandré



Durante décadas a América Latina viveu na ditadura... durante séculos nós vivemos sob regimes repressores e algumas pessoas parecem se esquecer disto ao apoiar medidas que com toda certeza colocam em risco a nossa liberdade. Tudo bem que nem sempre achamos que a liberdade existe mas quem viveu num regime militar sabe como nós temos sorte. Eu não vivi naquela época no entanto posso imaginar. Claro que algumas pessoas não se dão conta do que está acontecendo, por vários motivos diferentes, porém precisamos ficar atentos. Apoiar medidas como câmeras na rua é uma atitude que pode nos render um futuro bem desagradável.
Eu concordo que a violência está demais mas também concordo que a solução é reivindicar mais segurança e câmeras mnitorando as ruas não é uma medida de segurança, é uma medida de restrição da nossa liberdade. George Orwell em 1949 em seu livro "1984", previu o projeto big brother e nós agora estamos provando que ele estava certo.
Antes de uma idéia ser aceita é preciso que a sociedade discuta sobre ela, discuta de verdade. Pois o que acontece é que ninguém quer discutir sobre nada. Todos dizem sim ou não automaticamente, muitas vezes sem saber o que estão dizendo, nem sabem o motivo pelo qual defendem alguma posição. Pode ser que o caminho da dúvida seja muito positivo por que ele pode levar a um debate aberto sobre todo e qualquer assunto, sem falsos moralismos (muita gente já foi torturada e já morreu em nome da moral e dos bons costumes, mas com a ética ninguém se importa).
Todo mundo faz tanta questão de viver no seu mundinho que não percebe que a mudança de postura em algum momento vai deixar de ser individual e passar a ser coletiva.
Não estou falando só do monitoramento urbano... claro... estou falando da tolerância zero (acho ótimo o fato de um acidente causado por um motorista bêbado passar a ser doloso, mas todos nós sabemos que o álcool reage de forma diferente em cada organismo e tem muito mais por trás disto né), bares fecharem às 22h, terceiro mandato (nossa esse foi demais, e ninguém está preocupado nem debatendo, mesmo que seja descompromissadamente), e tantos outros (censura na tv, no cinema, no teatro)
É isso que eu tenho pra dizer, os últimos eventos têm sido bastante preocupantes. Minha preocupação maior é que quem ler este blog é consciente, pelo menos eu acho mas muito não são... alguns por falta de interesse e outros por falta de opção.
(Falo aqui só do Brasil mas precisamos ficar atento ao mundo, devemos extinguir as fronteiras).



Meu Caro Amigo

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

Chico Buarque e Frances Hime



HOMENS DE MÁRMORE
Tradução de Henriqueta Lisboa

Sonho com claustros de mármore

onde em silêncio divino

repousam heróis, de pé.

De noite, aos fulgores da alma,

falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

Por entre as filas; as mãos

de pedra lhes beijo; entreabrem

os olhos de pedra; movem

os lábios de pedra; tremem

as barbas de pedra; choram;

vibra a espada na bainha!

Calada lhes beijo as mãos.



Falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

por entre as filas; choroso

me abraço a um mármore. — “Ó mármore,

dizem que bebem teus filhos

o próprio sangue nas taças

envenenadas dos déspotas!

Que falam a língua torpe

dos libertinos! Que comem

reunidos o pão do opróbrio

na mesa tinta de sangue!

Que gastam em parolagem

as últimas fibras! Dizem,

ó mármore adormecido,

que tua raça está morta!”

Atira-me à terra súbito,

esse herói que abraço; agarra-me

o pescoço; varre a terra

com meus cabelos; levanta

o braço; fulge-lhe o braço

semelhante a um sol; ressoa

a pedra; buscam a cinta

as mãos diáfanas; da peanha

saltam os homens de mármore!

José Martí



Tenéis que oírme

Yo fui cantando errante
entre las uvas
de Euopa
y bajo el viento en el Asia.

Lo mejor de las vidas
y la vida,
la dulzura terrestre,
la paz pura,
fui recogiendo, errante,
recogiendo.

Lo mejor de una tierra
y otra tierra
yo levanté en mi boca
con mi canto:
la libertad del viento,
la paz entre las uvas.

Parecían los hombres
enemigos,
pero la misma noche
los cubría
y era una sola claridad
la que los despertaba:
la claridad del mundo.

Yo entré en las casas cuando
comían en la mesa,
venían de las fábricas,
reían o lloraban.

Todos eran iguales.

Todos tenían ojos
hacia la luz, buscaban
los caminos.

Todos tenían boca,
cantaban
hacia la primavera.

Todos.

Por eso
yo busqué entre las uvas
y el viento
lo mejor de los hombres.

Ahora tenéis que oírme.

Neruda



O Enterrado Vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

Carlos Drummond de Andrade

27 junho 2008

Por Descuido ou Displicência



"Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados".

O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Marques

Hoje eu faço uma homenagem a todos aqueles que perderam um grande amor - não importa o tipo de amor nem como ele foi perdido. Eu perdi dois grandes amores, um há alguns anos - não houve o que fizesse dar certo - e o outro antes mesmo de eu nascer - Jim Morrison, claro.
E dou uma dica. Há sete coisas que devemos fazer:
ler "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel Garcia Marques
ouvir tudo que puder de Edith Piaf
ver Edith Piaf - Um hino ao amor
ler Minha Vida Com Pablo Neruda, de Matilde Urrutia
ler Hilda Hilst
ler Lya Luft
ler Federico Garcia Lorca

Leiam tudo ouvindo Piaf. Talvez o primeiro livro fique melhor ao som de Buena Vista ou Gardel ou Merdedes Sosa.




Canção Outonal

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma da névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos na Terra?

Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.

Garcia Lorca



Canção Menor

Têm gotas de orvalho
as asas do rouxinal,
gotas claras da lua
coalhadas por sua ilusão.

Tem o mármore da fonte
o beijo do repuxo,
sonho de estrelas humildes.

As meninas dos jardins
me dizem todas adeus
quando passo. Os sinos
também me dizem adeus.
E as árvores se beijam
no crepúsculo. Eu
vou chorando pela rua,
grotesco e sem solução,
com tristeza de Cirano
e de Quixote,
redentor
de impossíveis infinitos
com o ritmo do relógio.
E vejo secarem-se os lírios
ao contato de minha voz
manchada de luz sangrenta,
e em minha lírica canção
levo galas de palhaço
empoado. O amor
belo e lindo se escondeu
sob uma aranha. O sol
qual outra aranha me oculta
com suas patas de ouro. Não
conseguirei minha ventura,
pois sou como o próprio Amor,
cujas flechas são de pranto,
e o carcás o coração.

Darei tudo aos demais
e chocarei minha paixão
como menino abandonado
em conto que se apagou.

Federico Garcia Lorca




Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Garcia Lorca



Outra Canção

Desfez-se o sonho para todo o sempre!
Nesta tarde chuvosa
meu coração aprende
a tragédia outonal
que as árvores suportam.

E na doce tristeza
da paisagem que morre
minhas vozes partiram-se.

Desfez-se o sonho para todo o sempre!
Para sempre! Deus meu!,
A neve vai caindo
na campina deserta
de minha vida,
e teme
a ilusão, se vai longe,
que se gele ou se perca.

Como, me disse a água,
que se desfez o sonho para sempre!
É o sonho infinito?
A neblina o sustenta,
e a neblina é tão só
o cansaço da neve.

Meu ritmo vai contando
que se desfez o sonho para sempre.
E na tarde brumosa
meu coração aprende
a tragédia outonal
que as árvores suportam.

Federico Garcia Lorca



Amora do Tronco Com o Tronco Gris

Amora de tronco gris,
da um cacho para mim.

Sangue e espinhos. Aproxima-te.
Se me queres, querer-te-ei.

Deixa teu fruto de verde e sombra
na minha língua, amora.

Que longo abraço te daria
na peneumbra de meus espinhos.

Amora, aonde vais?
Vou buscar amores que tu
não me dás.

Lorca



Encontro

Nem tu nem eu estamos
com disposição
de nos encontrar.
Tu... pelo que já sabes.
Eu a quis tanto!
Segue esta veredazinha.
Nas mãos,
tenho os buracos
dos cravos.
Não vÊs como me estou
dessangrando?
Não olhes nunca para trás,
vai devagar
e reza como eu
para São Caetano,
que nem tu nem eu estamos
com disposição
de nos encontrar.

Lorca



Mon Dieu (Tradução)

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Meu namorado!
Um dia, dois dias, oito dias ...
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Para mim ...

O tempo de se adorar
De se dizer
O tempo de se produzir
Lembranças
Meu Deus! Oh sim, meu Deus!
Deixe-o comigo
Preencher um pouco
Minha vida ...

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Meu namorado!
Seis meses, três meses, dois meses ...
Deixe-o comigo
Por somente
Um mês ...

O tempo de começar
Ou de terminar
O tempo de iluminar
Ou de sofrer
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Mesmo que esteja errada
Deixe-o comigo
Um pouco ...
Mesmo que esteja errada
Deixe-o comigo

Mais um pouco

Piaf (Intérprete)

23 junho 2008

A Vida Está Nos Olhos De quem Sabe Ver


“Fui a floresta porque queria viver eternamente
E sugar a essência da vida!
Eliminar tudo o que não era vida.
E não, ao morrer, descobrir que não vivi”


Henry David Thoreau

Hoje a idéia é não falar sobre nada, não pensar em nada, se deixar levar!!!

Som Molhado

Repare o som
alguém entrou no mar
o mar parece o som
de alguma risada
Repare o tom
de alguém quando gritar
que o choro e o mesmo tom
de alguma risada
Tente reparar, é bom
quando o vento dá na folha
lembra o mar, é o mesmo tom
da criança quando o olha
o som de qualquer chuva molha

Oswaldo Montenegro

Lendas

Lendas são para se contar
as cores do dia são lendas
fantasias como lençóis
que nos teus sonhos desvendas

Lendas são para se contar
sem ter medo nem pressa
como o vento constrói no ar
aquilo que lhe interessa

Oswaldo Montenegro

Sou um Guardador de Rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro

Farewell

4

Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.

Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.

Amor que quiere libertarse
para volver a amar.

Amor divinizado que se acerca
amor divinizado que se va.)

Pablo Neruda

Sinfonía de la trilla

Sacude las épicas eras
un loco viento festival.
Ah yeguayeguaa!...
Como un botón en primavera
se abre un relincho de cristal.

Revienta la espiga gallarda
bajo las patas vigorosas.
Ah yeguayeguaa!...
Por aumentar la zalagarda
trillarían las mariposas!

Maduros trigos amarillos,
campos expertos en donar.
Ah yeguayeguaa!...
Hombres de corazón sencillo.
Qué mas podemos esperar?

Éste es el fruto de tu ciencia,
varón de la mano callosa.
Ah yeguayeguaa!...
Sólo por falta de paciencia
las copihueras no dan rosas!

Sol que cayó a racimos sobre el llano,
ámbar de sol, quiero adorarte en todo:
en el oro del trigo y de las manos
que lo hicieron gavillas y recodos.

Ámbar del sol, quiero divinizarte
en la flor, en el grano y en el vino.
Amor sólo me alcaza para amarte:
para divinizarte, hazme divino!

Que la tierra florezca en mis acciones
como en el jugo de oro de las viñas,
que perfume el dolor de mis canciones
como un fruto olvidado en la campiña.

Que trascienda mi carne a sembradura
ávida de brotar por todas partes,
que mis arterias lleven agua pura,
agua que canta cuando se reparte!

Yo quiero estar desnudo en las gavillas,
pisado por los cascos enemigos,
yo quiero abrirme y entregar semillas
de pan, yo quiero ser de tierra y trigo!

Yo di licores rojos y dolientes
cuando trilló el Amor mis avenidas:
ahora daré licores de vertiente
y aromaré los valles con mi herida.

Campo, dame tus aguas y tus rocas,
entiérrame en tus surcos, o recoge
mi vida en las canciones de tu boca
como un grano de trigo de tus trojes...

Dulcifica mis labios con tus mieles,
campo de los lebreles pastorales!

Perfúmame a manzanas y laureles,
desgráname en los últimos trigales...

Lléname el corazón de cascabeles,
campo de los lebreles pastorales!

Rechinan por las carreteras
los carros de vientres fecundos.
Ah yeguayeguaa!...

La llamarada de las eras
es la cabellera del mundo!

Va un grito de bronce removiendo
las bestias que trillan sin tregua
en un remolino tremendo...
Ah yeguayeguaa!...

Pablo Neruda

18 junho 2008

Quem Havia de Imaginar


Acordar cedo é difícil, principalmente no frio, mas tem suas recompensas.
Por exemplo, ver o sol nascendo e iluminando tudo, as árvores floridas, uma andorinha passeando lentamente bem próxima à água do mar
E eu achando que era apática
Em relação a determinadas coisas sou mesmo mas não a isso, não ao espetáculo diário de renascimento do mundo
Ontem, passando pelo mesmo lugar, eu consegui enxergar toda essa beleza
Tudo de ruim se dissipa perante o eterno, o mundo se torna perfeito por uns instantes.
Muita paz e muito amor para todo mundo
Que todos os dias nós possamos enxergar essas belezas todas, ou, pelo menos, que todos os dias acordemos com vontade de enxergá-las


O Azul e o Tempo

Nada pra se acreditar
Mas o tempo não manchou o azul
Nada pra se acreditar
Mas o vento baila o mar azul
Nada pra se acreditar
Mas tá tudo azul
Nada pra se acreditar
Mas a fé tingiu o azul de anil
Nada pra se acreditar
Mas os santos rezam pro Brasil
Nada pra se acreditar
Mas você ja viu
Tudo que vai rebrilhar
Tudo que vai renascer
Tudo que vai nos salvar
Sem que a gente espere
Canta pra comemorar
Grita para amanhecer
Solta o choro da alegria
Que a paz adere

Oswaldo Montenegro

Água Viva

Eu conheço bem a fonte
Que desce aquele monte
Ainda que seja de noite
Nessa fonte está escondida
O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Ê ta" fonte mais estranha
Que desce pela montanha
Ainda que seja de noite
Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite
Sei que são caudalosas as torrentes
Que regam os céus, infernos, regam gentes
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite

Assim como todas as portas são diferentes
aparentemente todos os caminhos são diferente
Mas vão dar todos no mesmo lugar
O caminho do fogo é a água
Assim como o caminho do barco é o porto
O caminho do sangue é o chicote
Assim como o caminho do reto é o torto
O caminho do risco é o sucesso
Assim como o caminho do acaso é a sorte
O caminho da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte

Nessa fonte está escondida
O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Ê ta" fonte mais estranha
Que desce pela montanha
Ainda que seja de noite
Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite
Sei que são caudalosas as torrentes
Que regam os céus, infernos, regam gentes
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite


Raul Seixas e Paulo Coelho


Me lembro como eras no último outono.
Eras a boina cinzenta e o coração em calma.
Nos teus olhos brigavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caíam na água da tua alma.

Colada aos meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhiam a tua voz lenta e em calma.
Fogueira de espanto em que a minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre a minha alma.

Sinto viajarem teus olhos e é distante o outono:
boina cinzenta, voz de pássaro e coração de casa,
para onde emigraram os meus profundos desejos
e caíam os meus beijos alegres como brasas.

Céu (visto) de um navio. Campo (visto) dos montes:
tua lembrança é de luz, de fumaça, de lago em calma!
Mais para lá dos teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam na tua alma.

Pablo Neruda

12 junho 2008

Valentines Day ou Dia dos Namorados


Mais um fim de semana chegando e mais um dia dos namorados
E eu estou mal humorada - nem é por causa da falta de namorado pq com isso já me acostumei - mas meu siso voltou a nascer, o bichinho é tão nojento que nasce em parcelas bem pequenininhas. E alguém sumiu com o meu remédio e ele é caro. Dá pra acreditar? Ninguém. Hoje é dia dos namorados, tem festinha, ou seja, é uma oportunidade pra ver se aparece alguém e minha cara ta começando a ficar inchada por causa do maldito dente.
E para piorar tudo mesmo eu darei minha primeira aula amanhã de manhã muito cedo e além de ser completamente inexperiente - o estágio supervionado da faculdade não conta - eu terei que pegar o ônibus às 5h30 para poder estar na escola às sete. Inacreditável!!!!!!!! Justo eu que sempre fui dorminhoca e que acordo só depois das 10h. Mas por outro lado estou super feliz por ter conseguido um emprego.
Hoje eu dei minha primeira aula! Não foi tão terrível como eu havia imaginado. Mas quando eu acordei super atrasada, meu desodorante roll-on perdeu a bolinha e o desodorante esparramou pelo chão, e o ônibus em que eu estava atrapelou um cachorro eu imaginei que a aula seria meu fim. Só que eu estava errada e a aula foi na verdade o que me fez esquecer os acontecimentos ruins.
Ah e um cara com uma conversa super estranha, ou é louco ou pedófilo, fico durante 20 minutos falando comigo sem para nem pra respirar de manhã cedo na fila do terminal. Ninguém merece né!!!!!
Bom, é isso. Ainda terei mais uma semana e meia pela frente acordando cedo e encarando uma sala de aula atrás da outra, e muito ônibus e terminal.
Ainda bem que hoje é sexta e é dia de ruinir os amigos.
Vou lá.
Ah nem falei nada sobre se encontrei ou não alguém interessante na festa de ontem né? Pois é, vocês é que terão que imaginar.
Mistééééé´´eée´´eé´´erio!!!!!!!!

Groovin' on a Sunday afternoon
Really couldn't get away too soon
I can't imagine anything that's better
The world is ours whenever we're together
There ain't a place I'd like to be instead of
Groovin' down a crowded avenue
Doing anything we like to do
There's always lots of things that we can see
You can be anyone we like to be
All those happy people we could meet
Just groovin' on a Sunday afternoon
Really couldn't get away too soon

Groovin' baby

We'll keep on spending sunny days this way
We're gonna talk and laugh our time away
I feel it coming closer day by day
Life would be ecstasy, you and me endlessly

Groovin', groovin', groovin' on a Sunday afternoon
Really couldn't get away too soon
Groovin'


Marvin Gaye

Tudo bem, Marvin Gaye e dia dos namorados juntos é muito clichê mas é um clichê bom demais!!!!!

El día que me queiras (tradução)

Acaricia meu sono
o suave murmúrio
do teu suspirar.
Como ri a vida
se os teus olhos negros
me querem olhar
E se é meu o amparo do teu riso leve
que é como um cantar
Ele aquieta minha ferida
e tudo se esquece

No dia que me quiseres
A rosa que enfeita
se vestirá de festa
com sua melhor cor
E ao vento os sinos
dirão que tu já és minha
E loucas as fontes cantarão teu amor

Na noite que me quiseres
desde o azul do céu às estrelas ciumentas
nos olharão passar
E um raio misterioso
se aninhará nos teus cabelos
vagalumes curiosos verão que tu és o
meu consolo

No dia que me quiseres
não haverá mais que harmonia
será clara a aurora
e alegre a nascente
Trará quieta a brisa
rumor de melodias
e nos darão as fontes
seu canto de cristal
No dia que me quiseres
adoçará suas cordas o pássaro cantor
florecerá a vida
não existirá mais a dor

Na noite que me quiseres
desde o azul do céu às estrelas ciumentas
nos olharão passar
E um raio misterioso
se aninhará nos teus cabelos
vagalumes curiosos verão que tu és o
meu consolo


Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

07 junho 2008

Caminhos


Magia

Magia é o que faz voltar
Contra quem desejou o que de mal me desejam
O olho refletindo que vem contra mim
Os magos todos louvados sejam
No dia em que olhei pro mar
E alguém revelou que lá no fundo latejam
Os corações meninos de cem querubins
Que o fundo desse lago azulejam

Dá-me Brasília a calma
Que hoje Madalena precisa em mim
Me encha de luz a alma
Que o vento da alegria responda que sim

Dá-me Brasília a calma
Que hoje Madalena precisa em mim
Me encha de luz a alma
Que o vento da alegria responda
Que o vento da alegria responda depressa
Que o vento da alegria responda depressa que sim


Oswaldo Montenegro

Pois é né
Eu sou meio avoada, me perco em mim mesma muitas vezes, me distraio muito fácil
Passei a semana inteira me matando para fazer meu memorial para entregar este sábado
Imaginem qual não foi a minha surpresa ao chegar à faculdade e descobrir que não tinha aula...
rs
Tem vezes que acho que certas coisas realmente só acontecem comigo
Tomo ônibus errado, molho a cozinha toda lavando louça pq me distraio, nunca consigo descobrir o que há de diferentes nas pessoas, nunca consigo lembrar de datas que as pessoas consideram importantes, não consigo reconhecer pessoas que as vezes eu conheço nos rocks - mas ai é querer demais tbm né
Enfim, comecei a me perder muito cedo
Acho que foi quando ganhei uma planta na feira do verde e comecei a passar as minhas tardes conversando com ela
Ou talvez tenha sido sempre assim
Transformava meu estojo de madeira da faber castel em um castelo em que as canetas eram o rei e a rainha e os giz de cera eram os súditos
Depois vieram os livros e os ídolos da adolescência
Se não querem se perder nunca comecem a ler Drummond e Cecília Meireles aos 10 anos, nem Roberto Drummond aos 12, nem Thomas Morus e Erasmo de Roterdã aos 15, nem Aldous Huxley aos 16
Nunca ganhem uma planta na feira do verde, muito menos comecem a conversar com ela
Não ouçam músicas que hipnotizam
Nunca vá a nenhum lugar frequentado por pessoas que se vestem de maneira nada convencional
Não comecem uma banda
Não sejam romãnticos em sentido algum
Não passe tempo demais no próprio quarto
Evitem ao máximo sairem sozinhos
E ao final acrescente gelo e limão

Paço do Rosário

Beira de rio paço do rosário se avista ao longe
As ruas tortas vão se desenhando pelo arraial
Beira de rio paço do rosário limitando a agreste
Sua janela, velha doca de barrica e pau
Água barrenta rolando sem pressa consumindo a terra
O pôr-do-sol avermelhado paço do rosário
Na velha igreja já são 6 da tarde
O povo reza o terço ave maria, mãe do céu - cruz credo!
Quem me mata é deus...
Murmúrio lento, como prece aflita, vai descendo o rio
Acompanhando o dia que se vai buscando o anoitecer
E anoitecendo, paço do rosário, quase silencia
A velha estátua caída na praça, mais um dia
Velha rameira deixa a vela acesa por virgem maria
Ave maria, mãe do céu - crus credo!
Quem me mata é deus


Oswaldo Montenegro

Quebra Cabeça Sem Luz

É na clareza da mente
Que explode a procura do novo processo
E o que é meu direito eu exijo e não peço
Com a intensidade de quem quer viver
E optar: ir ou não por ali
A nossa primeira antena é a palavra
Que amplia a verdade que assusta
E a gente repete que quer mais não busca
E de um modo abstrato se ilude que fez
Mas qualquer dia vai ter que ficar definido o caminho
É mais louco do que já supôs a tal sabedoria
Magia que eu hoje procuro entender
Pra que o corpo supere a fadiga
Você o que pensa do assunto
Se a gente se encontra mas nunca tá junto
Vivendo esse quebra cabeça sem luz
Pra não ficar dividida
Minha mente estabeleci combinado faria
Dizer pondo um pouco de mate
Gelhá de fazer como os loucos
Falando aos tropeços (perdão rita lee)
Pra que a gente se entenda algum dia
Há de ser como o louco quixote
E a lógica insiste em guardar no seu pote
A mais linda palavra que eu ia dizer.
Mas qualquer dia você
Vai me ver disfarçar (há) de fazer como eu
Que disfarço na tal fantasia a magia
E só me fantasio do que venha ser
E o que se espera da minha cabeça
Há de ser invertido
E a sonata que eu já compus
Virou rock/quem roubou minha loucura fui eu
E agora devolvi


Oswaldo Montenegro

03 junho 2008

Nem Pink Floyd Explica


Peace Will Come

There's a chance peace will come in your life please buy one

For sometimes when I am feeling as big as the land
With the velvet hill in the small of my back
And my hands are playing the sand

And my feet are swimming in all of the waters
All of the rivers are givers to the ocean
According to plan, according to man

Well sometimes when I am feeling so grand
And I become the world
And the world becomes a man

And my song becomes a part of the river
I cry out to keep me just the way I am
According to plan

According to man, according to plan
According to man, according to plan

For sometimes when we have reached the end
With the velvet hill in the small of my backs
And our hands are clutching the sand

Will our blood become a part of the river
All of the rivers are givers to the ocean
According to plan, according to man

There's a chance peace will come
In your life please buy one.

Melanie Safka

Bem, parece que este blog virou mesmo um diário virtual né. Então prosseguirei assim. Mas vejam bem, as poesias e letras de músicas que coloco aqui sempre estão relacionadas ao que digo.
Esse fim de semana foi ótimo. A banda de um amigo meu voltou a tocar, no sábado fui com a Tati (infelizmente ela não consegue me acompanhar, rs) ao Pantera e depois fui na feira ecológica ver Pena Branca e Moxuara - o que foi ótimo, conheci pessoas legais, dancei, me diverti demais -, e para começar esta semana cheia de energia no domingo fui a um lugar chamado Piapitangui - próximo a Roda D'água - e conheci pessoas maravilhosas que me acolheram com todo carinho e me proporcionaram um dia perfeito. O lugar é simples, bem interior mesmo e é lindo demais!!!! Dá até para ver o Moxuara.
Espero que meus finais que já eram ótimos continuem ficando cada vez melhores.
E agora me voy porque tenho muito o que fazer. Com curso de informática, curso de Pedagogia de Projetos, revisão de livro pra finalizar, memorial para entregar no sábado e aniversário de amiga amanhã eu to lascada. rs Vamo que vamo!

Livro das Perguntas

Tem coisa mais boba na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Que vim fazer neste planeta?
A quem dirijo esta pergunta?

E que importância tenho eu
no tribunal do esquecimento?

Não era verdade que Deus
vivia no mundo da lua?

Minha poesia desgarrada
abr'olhos com estes olhos meus?

Por que me picam as pulgas e os
sargentos da literatura?

Que dirão da minha poesia
os que não tocaram meu sangue?

Posso perguntar ao meu livro
se eu mesmo o escrevi? Desde quando?

Por que nas épocas obscuras
se escreve com uma tinta extinta?

E por que detesto as cidades
com cheiro de mulher e urina?

Quem devorou rente aos meus olhos
um tubarão cheio de pústulas?

Por que andam as ondas me indagando
sobre as mesmíssimas perguntas?

Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?

Das tais virtudes que esqueci
dá pra fazer um terno novo?

Onde está o menino que fui:
anda comigo ou evaporou-se?

Sabe que nunca fui com ele
nem ele comigo tampouco?

Por que estivemos tanto tempo
crescendo para essa ruptura?

Quando minha infância se foi
por que nós dois não fomos junto?

Ainda ontem disse aos meus olhos:
quando de novo nos veremos?

Não é melhor nunca que tarde
dentro de listões amarelos?

Em que janela me quedei
em busca do tempo, se pulcro?

Ou o que diviso destes ermos
ainda não passa de futuro?

Que me esperava em Ilha Negra:
verdades verdes? compostura?

Se morri e não me dei conta
morto, a'hora, a quem me pergunto?

Quem me mandou desvencilhar-me
das portas do meu amor-próprio?

É verdade que um condor negro
sobrevoa minha pátria noite?

Que há de pesar mais na cintura:
padecimentos? memórias?

Que deu em mim de transmigrar
se vivem no Chile meus ossos?

Por que me movo sem querer?
Por que estou sempre desinquieto?

E se minh'alma desabou
por que meu esqueleto prossegue?

Por que vou girando sem rodas
e voando sem asas nem penas?

Por que minha roupa desbotada
se agita como uma bandeira?

30 maio 2008

O ser humano é realmente engraçado



Não acredito numa felicidade plena que é alcançada em determinado momento. Creio numa felicidade que lutamos para conquistar a cada dia. Ninguém vive de um único sentimento. A felicidade é conquistada - conforme a nossa vontade e o jeito como encaramos tudo ao nosso redor - a cada segundo em que estamos vivos.
Claro que cada um tem sua própria opinião sobre isto. E é claro também que nossas opiniões mudam ao longo da nossa trajetória. E muito mais claro ainda que as discussões são saudáveis e importantes.
E quer saber? Que mal há em prazeres momentâneos? Não da pra ser hedonista o tempo todo (quer dizer, algumas pessoas conseguem) mas de vez em quando é preciso e é muito bom. Eu, por exemplo, não confundo as coisas.
Achamos que sabemos o que se passa com o outro e achamos fácil julgar e apontar os erros - eu não me excluo disto.

Eu sou complexa e paradoxal, pois como qualquer um, sou tudo e nada ao mesmo tempo e o tempo todo. Para me entender não é preciso saber de filosofia, de literatura, de artes, ou de psicologia. Para me entender é preciso saber de flores, de sol, de lua, de outono e de primavera, e de mar. É preciso saber escutar a música que o mundo produz e saber cantar para o desconhecido.

O Amor é uma Companhia

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrada por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as coisas,
E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.
Como o campo é vasto e o amor interior...!
Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.

Alberto Caeiro

XVIII

Para tua fome

Eu teria colocado meu coração
Entre os ciprestes e o cedro

E tu o encontrarias
Na tua ronda de luta e incoesão:
A ronda que persegues.

Para tua sede
As nascentes da infância:
Um molhado de fadas e sorvetes.

E abriria em mim mesma
Uma nova ferida

Para tua vida.

Hilda Hilst

IV

Tenho pedido a Deus, e à lua, ontem
Hoje, a cada noite, PERPETUIDADE
Desde o instante em que me soube tua.
E que o luar e o divino perdoassem
O meu rosto anterior, rosto-menino
Travestido de aroma, despudor contente
De sua brevidade em tudo, nos afetos
No fingido amor
Porque fui tudo isso, bruxa, duende
Desengano e desgosto quase sempre.

Mais nada pedi a Deus. Mas pedi mais
À lua: que tu sofresses tanto quanto eu.

Hilda Hilst

V

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor de palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

Hilda Hilst

VII

Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo

Também isso te devo.

Hilda Hilst

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livro-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamor, amando. Este lembrando

- Fazedor de desgosto -
Que eu te esuqeça.

Hilda Hilst

GAROTA DE OUTONO

GAROTA DE OUTONO