Uma beleza que não se pode enxergar com os olhos e uma beleza clara e evidente.
SERENATANa tua fronte descansa a cor das papoulas,
o luto das viúvas encontra eco, oh compadecida:
quando corres atrás dos trens de ferro, nos campos,
o franzino lavrador te dá as costas,
das tuas pisadas brotam a tremer os doces sapos.
O jovem sem recordações te saúda, te pergunta pela sua
esquecida vontade,
as mãos dele se movem na tua atmosfera como
´pássaros,
e a umidade é grande a seu redor:
atravessando seus pensamentos incompletos,
querendo algo alcançar, oh, te buscando,
palpitam-lhe os olhos pálidos na tua rede
como instrumentos perdidos que brilham de súbito.
Ou recordo o primeiro dia da sede,
a sombra estreitada entre os jasmins,
o corpo profundo em que te recolhias
como uma gota a tremer também.
Mas calas as grandes árvores, e por cima da lua,
sobre longe,
vigias o mar como um ladrão.
Oh noite, minha alma apanhada de surpresa te pergunta
desesperadamente a ti pelo metal de que precisa.
LXIXTalvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.
LXVINão te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.