16 junho 2007

O MEU PASSADO É A DAMA DO LUGAR COMUM




O passado persegue quando a única coisa que se deseja é ser livre para seguir e não pensar mais nele...
Realmente ele já não faz diferença - na maioria das vezes - e é ele que não consegue se livrar da gente!
Meu ano está quase começando e eu faço um pedido por antecipação:

PASSADO ME DEIXE VOAR!





Ir para bem longe da sua chatice, da sua mesmice... o que tem de bom guarde... talvez um dia eu venha a precisar!









A Dama do Lugar Comum

Era como anúncio de shampoo
Era vitrine como submersa luminosidade de cristal
Ela entrou no Shaikka
Disse alô, pediu café
E disse olha gente eu sempre fico triste nos Natal
Era a deusa do lugar comum
E sempre repetia as frases mais batidas como coisa genial
Um por todos e todos por um
Quem não arrisca não petisca
E brincava de odalisca o carnaval
Só ia ao cinema aos domingos
Sua avó jogava bingo
E ela achava que hoje o mundo anda mal
Adorava o Relógio das Flores
Que rimava com amores quando poetava no colegial
Era a deusa do lugar comum
E achava que homem nenhum era perfeito como Deus
E coisa e tal
Andorinha só não faz verão
Quando um não quer não, dois brigam não
E ter dois pássaros na mão é imoral
Hoje, eleita Miss Curitiba
Ela dedica pra ti, mamãe, e pro papai
Seu dia mais legal
Mas ora meu Deus, recusa o trono pra casar
Trocar de dono
E agradece, mas não faz comercial
Oswaldo Montenegro




Só me resta dançar um tango argentino!!!!

09 junho 2007

EROS E TÂNATOS

DITO POPULAR:
O QUE NÃO REMÉDIO, REMEDIADO ESTÁ!!!!!!


ALGUMAS COISAS NA VIDA, QUASE TODAS ELAS, SÃO INEVITÁVEIS... AS PRINCIPAIS, NASCER E MORRER, O SÃO!!



Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.


Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.


...............................................................................................................


— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira



TRÁGICO NÉ? A ÚNICA COISA A FAZER DIANTE DA IMPOSSIBILIDADE DA VIDA FUTURA É CELEBRÁ-LA...



Apologia Tanguera

Tango rante que tenés
el alma de un cachetazo,
que vas llevando un hachazo
en la frente y lo escondés;
de la cabeza a los pies,
vestido de luto entero,
sos un símbolo canero
que va taconeando fuerte;
sos la Risa y sos la Muerte,
vestidas de milonguero.

Sos entre el camandulaje
un cacho de mala suerte;
sos el barbijo de muerte
que rubrica el sabalaje;
sos el alma del chusmaje
metida en un bandoneón;
sos la furca, la traición
y sos una flor de yuyo,
el piropo y el chamuyo
que perfuma el corazón.

Sos el lamento tristón,
que, amarrocando sentidos,
te metés por los oídos
y escarbás el corazón.
Sos el réquiem compadrón,
el que gimió allá en París;
con tu canyengue, me oís?,
vos fuiste el fiero remache
qui hizo temblar al apache
y llorar a las Mimís.

Tango lindo que se estira
en un bandola atorrante
y que sale agonizante
mientras se baila y se aspira...
Tango! Sos como una tira
de prepotencia y de mal;
sos lágrima y delantal,
sos velorio y cocaína,
y sos tristeza de mina
que se clava en un puñal

Letra de Enrique Cadícamo
Musica de Rosita Quiroga



"Toque o último compasso bem suave." Ana Pavlova

http://www.youtube.com/watch?v=q9EZnQCG6k8

06 junho 2007

CREPUSCULÁRIO: SOBRE MIM, SOBRE ARIANO

SOBRE MIM, SOBRE ARIANO

Sempre acho tudo que acontece ou percebo incrível... mas isso é incrível de verdade, pelo menos para mim... devo esclarecer que meus incríveis são bons... quando o incrível é ruim eu digo que é horrível... Pois então
Estava lendo uma entrevista da Caros Amigos com o Ariano Suassuna e me deparei com algo que não sabia... García Lorca (escritor que adoro) influênciou Ariano (que eu também adoro)!!!! Isso é besteira, concordo, mas é muito legal... fiquei muito feliz quando soube e como Ariano este mês comemora 80 anos - o que me deixa muito feliz pois sou besta de nascença - achei proveitoso colocar aqui um trecho da entrevista que é esse que está logo abaixo!!!



Marco Bahé - Quando você se sentiu escritor?
Escrevi esse primeiro conto, depois escrevi poemas. Aos 17 anos tentei escrever uma peça. Havia um médico de Taperoá, muito culto, chamado Abdias Campos, e ele tinha as peças de Ibsen. Me emprestou e me impressionei profundamente com as peças de Ibsen. Tentei escrever aos 17 anos uma peça sob influência de Ibsen. Mas, como você bem pode imaginar, havia uma diferença muito grande do menino sertanejo... porque o sertão tem muito pouca coisa em comum com a Noruega, não é? Então, não sei se por causa disso, não consegui terminar a peça.

Diana Moura - Não matou ninguém...
Não matei ninguém. Aí, continuei a escrever poemas e, aos 18 anos, no colégio, tive um professor de geografia que era interessado em literatura. Quando foi um dia, ele passou uma prova lá e eu não estava preparado... aí taquei literatura. Era uma prova sobre aspectos do relevo brasileiro. Eu falei sobre Drummond, Aleijadinho, falei o diabo, só não falei do relevo. Me lembro que tinha alguns nomes como o rio São Francisco, o rio Amazonas, Planalto Central e as coxilhas do Rio Grande do Sul... Então ele foi entregando as provas e disse: "Essa aqui eu deixei pro fim porque quero conhecer o autor, que pode não ser bom em geografia, mas gosta de literatura". Eu disse: "Fui eu". Aí ele pergunta se eu gosto de literatura e se escrevo. Aí eu digo: "Escrevo". "Escreve o quê?" "Escrevo poesia." Ele disse: "Me traga um poema". Aí, na aula seguinte eu levei. Ele pegou e disse: "Você pode me emprestar?" Eu digo: "Posso". Rapaz, ele me fez uma surpresa... que alegria! Quando foi no domingo, abri o Jornal do Commercio, estava publicado. Foi em 7 de outubro de 1945. A partir daí, passei a publicar lá. Aos 19 anos entrei para a Faculdade de Direito e conheci Hermilo Borba Filho, que exerceu uma influência muito grande em mim na parte de teatro. Ele leu meus poemas, que já eram ligados ao romanceiro popular do Nordeste, e disse: "Você precisa conhecer o teatro de García Lorca". E me colocou nas mãos o teatro de García Lorca. E esse, sim, desempenhou um papel muito importante na minha formação de escritor, porque a região que ele descrevia parecia com a minha, não é? Tinha cavalo, tinha boi, tinha cigano do mesmo jeito que Taperoá. Muito diferente da Noruega...





Cordel para Federico Garcia Lorca (trecho)

Gran poeta español
Vate extraordinário
Federico García Lorca
Criativo visionário
De inspiração divina:
Menestrel universário...

Federico García Lorca
Da província de Granada
Poeta multiluminado
Amante da madrugada
Filho de Federico Rodriguez
E de Vicenta: mãe amada...

Nasceu em Fuente Vaqueros
Era vate granadeiro
Em 1898:
Veio ao mundo por inteiro
Pra ser poeta do povo:
Criativo condoreiro...

Sofreu grave enfermidade
Aos dois anos de idade
Sobreviveu o menino
Pra ser ás da liberdade
Um cantador popular:
E amante da verdade...

Aprendeu primeiras letras
Com a sua mãe querida.
Mestre Antônio Espinosa
Inspirou a sua lida
Nos mistérios da leitura:
Lorca embarcou na vida...

São irmãos de Federico
Francisco, Conchita, Isabel
No Colégio de Almería
Estudou o menestrel
Venceu a enfermidade:
Registro aqui no cordel...

Mudou-se para Granada
Para melhor se preparar
Sagrado Coração de Jesus
Estruturou-se o pensar
Lorca buscou o saber:
Para na vida se elevar...

Ano 1914:
Universidade de Granada
Estudos e amizades
Dinamismo na jornada
Almagro, Burín, Montesinos:
Noite, dia, almadrugada...

Filosofia, Letras e Direito
Cursou na Universidade
Soriano, Barrios, Ortiz
Cultivaram lamizade
Cristobal, Guarnizo, Pizarro:
Paz, amor, fraternidade...

Ismael de La Serna:
Foi fraterno companheiro
Estudou guitarra/piano
Nosso vate condoreiro
Tem alma de cantador:
Espírito de guerrilheiro.

1916 - 1917
Sentiue o calor da musa
Vem os primeiros poemas
A transpiração bem usa
Lorca poeta gitano:
Bom poeta não se escusa...

Centro Artístico de Granada
Publica em seu Boletim
Centenário de Zorrilla
Lorca poeta serafim

Primeiro trabalho literário:
Lorca: princípio sem fim...

Fez viagens de estudos
Para várias regiões
Castela, Andaluzia
Galícia e seus rincões
Pela Espanha afora:
Fez cicunavegações...

El malefício de la mariposa
Estréia no Teatro Eslava
Direção de Gregorio Martinez
O poeta se burilava
Bailes de La Argentinita:
Federico se encantava...

Depois da marcha a Madrí
Amizade com Buñuel
Orueta e Pepín Bello
Lorca: ator-menestrel
Pensador e dramaturgo:
Na vertente do cordel...

Decorados de Mignoni
Figurinos de Barradas
Viagem pela Espanha
Muitos sonhos nas estradas
Zujaira, Granada, Madrí:
Transmutou-se nas jornadas...

Primeiro Libro de Poemas
Em El Sol é comentado
Por Adolfo Salazar
O livro é destacado
Análise de "Um Poeta Nuevo":
En un artículo titulado...

Roda, Alamagro, Marchesi
Maria Luísa e Gabriel
Emílio Prados, José Mora
Dedicação no papel
Cienfuegos e Ortiz:
Sem esquecer Buñuel...

Idos de 1921
Lorca fez publicação
Balada de la placeta
Poesia flui do coração
Poetas Espanhóis Contemporâneos:
Lorca em contestação...

Juan Ramón Jimenéz:
Textos de Lorca publicou
Em sua revista Índice
Juan a Lorca divulgou.
Noche e Suíte dos Espelhos:
Lorca ao povo apresentou...

El jardin de las morenas
Por Jiménez: destacado
Lorca escreve Canciones
É um canto de alto brado
O poeta granadeiro:
É um nome eternizado...

Publicou "El Cante Jondo"
Canto andaluz primitivo
Manoel Angeles, Manuel de Falla
Apoio ao Lorca sensitivo
Poema del cante jondo:
É um cancioneiro vivo...

"Fiesta para los ninos":
Por Federico preparada
Pelo amigo Manuel de Falla
A festa foi apoiada
Em 1923:
Lá na terra de Granada...


Cervantes e Strawinsky
Debussy e Rafael
Hermenegildo Lanz:
Mais Albéniz y Pedrell
Auto de los Reyes Magos:
Com Laurita e Isabel...

Licenciou-se em Direito
Na Universidade de Granada
Junto com Gullermo Torre
Conclui dura jornada
Federico García Lorca:
Constelação da alvorada...

Gustavo Dourado



http://www.brennand.com.br/brennand.php
http://www.unicap.br/armorial/

05 junho 2007

NATURALIDADE

É incrível o quanto é difícil romper com os padrões e o quanto é essencial que isso aconteça, de preferência naturalmente!
As regras são sempre tão cruéis e nós mais cruéis ainda.
Nada é preciso, nada é necessário!!!!!





ESTRELAS

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.
Há estrelas-peixe, estrelas-piano, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás.
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.

Murilo Mendes


03 junho 2007

AUTOBIOGRAFIA



A MULHER SENTADA

MULHER. MULHER E POMBOS.
MULHER ENTRE SONHOS.
NUVENS NOS SEUS OLHOS?
NUVENS SOBRE SEUS CABELOS.

(A VISITA ESPERA NA SALA;
A NOTÍCIA, NO TELEFONE;
A MORTE CRESCE NA HORA;
A PRIMAVERA, ALÉM DA JANELA).

MULHER SENTADA. TRANQÜILA
NA SALA, COMO SE VOASSE.




A MULHER E A CASA

TUA SEDUÇÃO É MENOS
DE MULHER DO QUE DE CASA:
POIS VEM DE COMO É POR DENTRO
OU POR DETRÁS DA FACHADA.

MESMO QUANDO ELA POSSUI
TUA PLÁCIDA ELEGÂNCIA,
ESSE TEU REBOCO CLARO,
RISO FRANCO DE VARANDAS,

UMA CASA NÃO É NUNCA
SÓ PARA SER CONTEMPLADA;
MELHOR: SOMENTE POR DENTRO
É POSSÍVEL CONTEMPLÁ-LA.

SEDUZ PELO QUE É DENTRO,
OU SERÁ, QUANDO SE ABRA:
PELO QUE PODE SER DENTRO
DE SUAS PAREDES FECHADAS,

PELO QUE DENTRO FIZERAM
COM SEUS VAZIOS, COM O NADA;
PELOS ESPAÇOS DE DENTRO,
NÃO PELO QUE DENTRO GUARDA;

PELOS ESPAÇOS DE DENTRO:
SEUS RECINTOS, SUAS ÁREAS,
ORGANIZANDO-SE DENTROEM CORREDORES E SALAS,

OS QUAIS SUGERINDO AO HOMEM
ESTÂNCIAS ACONCHEGADAS,
PAREDES BEM REVESTIDAS
OU RECESSOS BONS DE CAVAS,

EXERCEM SOBRE ESSE HOMEM
EFEITO IGUAL AO QUE CAUSAS:
POR DENTRO DE VISITÁ-LA.

João Cabral

CREPUSCULÁRIO: CONFISSÃO OUTONAL

CREPUSCULÁRIO: CONFISSÃO OUTONAL

02 junho 2007

CONFISSÃO OUTONAL


Nunca vi céus tão lindos como os desse outono.
Não sei se é o outono ou se sou eu mas a cada dia uma tonalidade diferente me encanta no céu.
Acho que não sou eu nem o outono, são Neruda e Lorca impregnados em tudo!!

Crepúsculo de Outono

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira

GAROTA DE OUTONO

GAROTA DE OUTONO