05 junho 2007

NATURALIDADE

É incrível o quanto é difícil romper com os padrões e o quanto é essencial que isso aconteça, de preferência naturalmente!
As regras são sempre tão cruéis e nós mais cruéis ainda.
Nada é preciso, nada é necessário!!!!!





ESTRELAS

Há estrelas brancas, azuis, verdes, vermelhas.
Há estrelas-peixe, estrelas-piano, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás.
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.

Murilo Mendes


03 junho 2007

AUTOBIOGRAFIA



A MULHER SENTADA

MULHER. MULHER E POMBOS.
MULHER ENTRE SONHOS.
NUVENS NOS SEUS OLHOS?
NUVENS SOBRE SEUS CABELOS.

(A VISITA ESPERA NA SALA;
A NOTÍCIA, NO TELEFONE;
A MORTE CRESCE NA HORA;
A PRIMAVERA, ALÉM DA JANELA).

MULHER SENTADA. TRANQÜILA
NA SALA, COMO SE VOASSE.




A MULHER E A CASA

TUA SEDUÇÃO É MENOS
DE MULHER DO QUE DE CASA:
POIS VEM DE COMO É POR DENTRO
OU POR DETRÁS DA FACHADA.

MESMO QUANDO ELA POSSUI
TUA PLÁCIDA ELEGÂNCIA,
ESSE TEU REBOCO CLARO,
RISO FRANCO DE VARANDAS,

UMA CASA NÃO É NUNCA
SÓ PARA SER CONTEMPLADA;
MELHOR: SOMENTE POR DENTRO
É POSSÍVEL CONTEMPLÁ-LA.

SEDUZ PELO QUE É DENTRO,
OU SERÁ, QUANDO SE ABRA:
PELO QUE PODE SER DENTRO
DE SUAS PAREDES FECHADAS,

PELO QUE DENTRO FIZERAM
COM SEUS VAZIOS, COM O NADA;
PELOS ESPAÇOS DE DENTRO,
NÃO PELO QUE DENTRO GUARDA;

PELOS ESPAÇOS DE DENTRO:
SEUS RECINTOS, SUAS ÁREAS,
ORGANIZANDO-SE DENTROEM CORREDORES E SALAS,

OS QUAIS SUGERINDO AO HOMEM
ESTÂNCIAS ACONCHEGADAS,
PAREDES BEM REVESTIDAS
OU RECESSOS BONS DE CAVAS,

EXERCEM SOBRE ESSE HOMEM
EFEITO IGUAL AO QUE CAUSAS:
POR DENTRO DE VISITÁ-LA.

João Cabral

CREPUSCULÁRIO: CONFISSÃO OUTONAL

CREPUSCULÁRIO: CONFISSÃO OUTONAL

02 junho 2007

CONFISSÃO OUTONAL


Nunca vi céus tão lindos como os desse outono.
Não sei se é o outono ou se sou eu mas a cada dia uma tonalidade diferente me encanta no céu.
Acho que não sou eu nem o outono, são Neruda e Lorca impregnados em tudo!!

Crepúsculo de Outono

O crepúsculo cai, manso como uma benção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale...o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.

Manuel Bandeira

GAROTA DE OUTONO

GAROTA DE OUTONO