03 maio 2010

Finalmente




       Parece que o frio está se esforçando para impor sua presença, então para comemorar nada melhor que um poema que captou bem a essência do outono.

ODE AO VENTO OESTE
I

Selvagem Vento Oeste, ó tu, sopro do outono,
Invisível presença de que as folhas mortas
Fogem como fantasmas diante de algum bruxo,

Pálidas, amarelas, pretas ou vermelhas
De febre, pestilentas multidões; ó tu
Que as sementes aladas levas ao seu leito

De inverno, onde repousam frias e prostradas,
Como cadáveres nos túmulos, até
Que a tua irmã azul da primavera toque

O clarim sobre a terra sonhadora e encha
De cores e perfumes a planície e os montes,
Levando aos pastos do ar rebanhos de botões;

Espírito selvagem que por toda parte
Te moves; destruidor e salvador, oh escuta!

II

Tu em cuja corrente, em meio à agitação
Do íngreme céu, as nuvens caem como folhas
Desses confusos ramos - Firmamento e Mar -,

Anjos da chuva e do relâmpago; as madeixas
Da tempestade que está vindo se derramam
Na superficie azul de sua vaga area,

Desde a fímbria sombria do horizonte ao zênite,
Como o cabelo erguido, a rebrilhar, da fronte
Da Mênade bravia. Tu, cântico fúnebre

Do ano que está morrendo, para o qual essa última
Noite será o domo de um sepulcro enorme,
Abodado com a força congregada

De teus vapores: atmosfera espessa de onde
Chuva, fogo e granizo saltarão: oh, escuta!

III

Tu que acordaste de seus sonhos de verão
O azul Mediterâneo onde este era embalado
Pelo rumor de suas correntes de cristal.

Na angra da baía, ao pé de ilhas de pedra pomes,
E via em sonho velhas torres e palácios
No dia mais intenso da onda estremecerem,

Recobertos de musgo azul e de tão doce
Flores, que desmaiamos ao pensarmos nelas!
Tu, a cuja passagem se abrem em abismos

As planície atlânticas, enquanto embaixo
As flores submarinas e os limosos caules
De folhagem sem seiva a voz te reconhecem

E de repente empalidecem de pavor
E tremem e despojam-se de todo: oh escuta!

IV

Se eu fosse alguma folha morta, que levasses;
Se eu fosse a nuvem célere a voar contigo;
Uma onda ofegante sob o teu poder

E partilhando o impulso dessa tua força,
Só menos livre que tu, ó indomável!
Se eu fosse igual ao que já fui na meninice,

O companheiro dessas fugas pelo céu,
Quando vencer tua celeste rapidez
Em nada parecia um sonho; eu não teria

Lutado assim contigo, a suplicar aflito.
Como seu eu fosse onda, nuvem, folha, oh ergue-me!
Nos espinhos da vida eu caio! Estou sangrando!

Um grave fardo de horas encadeou e verga
Alguém igual a ti:rápido, altivo, indômito.

V

Tua lira é a floresta, e que eu também o seja;
Se como as dela as minhas folhas caem, que importa!
O tumulto de tuas fortes harmonias

Tirará de nós dois profundo som de outono,
Doce mas triste. Faze-te bravio espírito,
O meu espírito! Ó impetuoso, sê eu próprio!

Leva meus pensamentos mortos pelo mundo,
Quais folhas murchas, e haverá um renascimento!
E, pela força encantatória destes versos,

Espalha a minha voz por entre a humanidade,
Como cinzas e chspas de lareira acesa!
Para a terra que dorme, sê, com estes lábios,

Oh! a trombeta de uma profecia! Vento,
Se chega o inverno, estará longe a primavera?

Percy Shelley

       Ah, para combinar com o clima melancólico resolvi colocar aqui o clipe de The Crystal Ship, do Doors... Pois, para mim, Outono e The Doors são duas coisas sagradas e preciosas e The Crystal Ship é, com certeza, uma das minhas músicas favoritas, dentre todas que já ouvi...


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GAROTA DE OUTONO

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Por um 2010 mais romântico!

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