25 junho 2009


Matilde Urrutia, minha mulher

Minha mulher é da província como eu. Nasceu numa cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terremotos. Ao falar-lhe, disse tudo em meus Cem Sonetos de Amor. Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu. Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile. Não no verão porque o litoral, ressequido pelo sol, mostra-se então amarelo e desértico; mas no inverno sim, quando uma estranha floração se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo: de azul e purpúreo. Algumas vezes subimos do selvagem e solitário oceano para a trepidante cidade de Santiago, na qual juntos padecemos com a complicada existência dos demais. Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.
Dedico-lhe tudo que escrevo e tudo que tenho. Não é muito mas ela está contente. Diviso-a agora como afunda os sapatos minúsculos no barro do jardim e depois também afunda suas mãos minúsculas na profundidade da planta. frutos fragrantes da felicidade. Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores...


Pablo Neruda, Confesso que vivi

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