04 julho 2008

Big Brother S/A



"La justicia, la igualdad del mérito, el trato respetuoso del hombre, la igualdad plena del derecho: eso es la revolución."
José Martí



Vou Caminhando

Vou caminhando
Sorrindo, cantando
Meu canto e meu riso
Não são pra enganar

Quem vem comigo
Bem sabe o que digo
Que há muito motivo
Pra gente chorar

Mas se lastimar
De nada vai valer
Já vi mãe chorar
Criança não crescer

Um menino que morreu
Um pai que em vão padeceu
Pela vida vou lembrando
Que lembrando espero eu

E vou caminhando
Sorrindo, cantando
Até que um dia.

Geraldo Vandré



Durante décadas a América Latina viveu na ditadura... durante séculos nós vivemos sob regimes repressores e algumas pessoas parecem se esquecer disto ao apoiar medidas que com toda certeza colocam em risco a nossa liberdade. Tudo bem que nem sempre achamos que a liberdade existe mas quem viveu num regime militar sabe como nós temos sorte. Eu não vivi naquela época no entanto posso imaginar. Claro que algumas pessoas não se dão conta do que está acontecendo, por vários motivos diferentes, porém precisamos ficar atentos. Apoiar medidas como câmeras na rua é uma atitude que pode nos render um futuro bem desagradável.
Eu concordo que a violência está demais mas também concordo que a solução é reivindicar mais segurança e câmeras mnitorando as ruas não é uma medida de segurança, é uma medida de restrição da nossa liberdade. George Orwell em 1949 em seu livro "1984", previu o projeto big brother e nós agora estamos provando que ele estava certo.
Antes de uma idéia ser aceita é preciso que a sociedade discuta sobre ela, discuta de verdade. Pois o que acontece é que ninguém quer discutir sobre nada. Todos dizem sim ou não automaticamente, muitas vezes sem saber o que estão dizendo, nem sabem o motivo pelo qual defendem alguma posição. Pode ser que o caminho da dúvida seja muito positivo por que ele pode levar a um debate aberto sobre todo e qualquer assunto, sem falsos moralismos (muita gente já foi torturada e já morreu em nome da moral e dos bons costumes, mas com a ética ninguém se importa).
Todo mundo faz tanta questão de viver no seu mundinho que não percebe que a mudança de postura em algum momento vai deixar de ser individual e passar a ser coletiva.
Não estou falando só do monitoramento urbano... claro... estou falando da tolerância zero (acho ótimo o fato de um acidente causado por um motorista bêbado passar a ser doloso, mas todos nós sabemos que o álcool reage de forma diferente em cada organismo e tem muito mais por trás disto né), bares fecharem às 22h, terceiro mandato (nossa esse foi demais, e ninguém está preocupado nem debatendo, mesmo que seja descompromissadamente), e tantos outros (censura na tv, no cinema, no teatro)
É isso que eu tenho pra dizer, os últimos eventos têm sido bastante preocupantes. Minha preocupação maior é que quem ler este blog é consciente, pelo menos eu acho mas muito não são... alguns por falta de interesse e outros por falta de opção.
(Falo aqui só do Brasil mas precisamos ficar atento ao mundo, devemos extinguir as fronteiras).



Meu Caro Amigo

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

Chico Buarque e Frances Hime



HOMENS DE MÁRMORE
Tradução de Henriqueta Lisboa

Sonho com claustros de mármore

onde em silêncio divino

repousam heróis, de pé.

De noite, aos fulgores da alma,

falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

Por entre as filas; as mãos

de pedra lhes beijo; entreabrem

os olhos de pedra; movem

os lábios de pedra; tremem

as barbas de pedra; choram;

vibra a espada na bainha!

Calada lhes beijo as mãos.



Falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

por entre as filas; choroso

me abraço a um mármore. — “Ó mármore,

dizem que bebem teus filhos

o próprio sangue nas taças

envenenadas dos déspotas!

Que falam a língua torpe

dos libertinos! Que comem

reunidos o pão do opróbrio

na mesa tinta de sangue!

Que gastam em parolagem

as últimas fibras! Dizem,

ó mármore adormecido,

que tua raça está morta!”

Atira-me à terra súbito,

esse herói que abraço; agarra-me

o pescoço; varre a terra

com meus cabelos; levanta

o braço; fulge-lhe o braço

semelhante a um sol; ressoa

a pedra; buscam a cinta

as mãos diáfanas; da peanha

saltam os homens de mármore!

José Martí



Tenéis que oírme

Yo fui cantando errante
entre las uvas
de Euopa
y bajo el viento en el Asia.

Lo mejor de las vidas
y la vida,
la dulzura terrestre,
la paz pura,
fui recogiendo, errante,
recogiendo.

Lo mejor de una tierra
y otra tierra
yo levanté en mi boca
con mi canto:
la libertad del viento,
la paz entre las uvas.

Parecían los hombres
enemigos,
pero la misma noche
los cubría
y era una sola claridad
la que los despertaba:
la claridad del mundo.

Yo entré en las casas cuando
comían en la mesa,
venían de las fábricas,
reían o lloraban.

Todos eran iguales.

Todos tenían ojos
hacia la luz, buscaban
los caminos.

Todos tenían boca,
cantaban
hacia la primavera.

Todos.

Por eso
yo busqué entre las uvas
y el viento
lo mejor de los hombres.

Ahora tenéis que oírme.

Neruda



O Enterrado Vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

Carlos Drummond de Andrade

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