27 junho 2008

Por Descuido ou Displicência



"Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados".

O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Marques

Hoje eu faço uma homenagem a todos aqueles que perderam um grande amor - não importa o tipo de amor nem como ele foi perdido. Eu perdi dois grandes amores, um há alguns anos - não houve o que fizesse dar certo - e o outro antes mesmo de eu nascer - Jim Morrison, claro.
E dou uma dica. Há sete coisas que devemos fazer:
ler "O amor nos tempos do cólera", de Gabriel Garcia Marques
ouvir tudo que puder de Edith Piaf
ver Edith Piaf - Um hino ao amor
ler Minha Vida Com Pablo Neruda, de Matilde Urrutia
ler Hilda Hilst
ler Lya Luft
ler Federico Garcia Lorca

Leiam tudo ouvindo Piaf. Talvez o primeiro livro fique melhor ao som de Buena Vista ou Gardel ou Merdedes Sosa.




Canção Outonal

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma da névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos na Terra?

Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Corações dos meninos!
Almas rudes das pedras!
Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.

Garcia Lorca



Canção Menor

Têm gotas de orvalho
as asas do rouxinal,
gotas claras da lua
coalhadas por sua ilusão.

Tem o mármore da fonte
o beijo do repuxo,
sonho de estrelas humildes.

As meninas dos jardins
me dizem todas adeus
quando passo. Os sinos
também me dizem adeus.
E as árvores se beijam
no crepúsculo. Eu
vou chorando pela rua,
grotesco e sem solução,
com tristeza de Cirano
e de Quixote,
redentor
de impossíveis infinitos
com o ritmo do relógio.
E vejo secarem-se os lírios
ao contato de minha voz
manchada de luz sangrenta,
e em minha lírica canção
levo galas de palhaço
empoado. O amor
belo e lindo se escondeu
sob uma aranha. O sol
qual outra aranha me oculta
com suas patas de ouro. Não
conseguirei minha ventura,
pois sou como o próprio Amor,
cujas flechas são de pranto,
e o carcás o coração.

Darei tudo aos demais
e chocarei minha paixão
como menino abandonado
em conto que se apagou.

Federico Garcia Lorca




Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!

Garcia Lorca



Outra Canção

Desfez-se o sonho para todo o sempre!
Nesta tarde chuvosa
meu coração aprende
a tragédia outonal
que as árvores suportam.

E na doce tristeza
da paisagem que morre
minhas vozes partiram-se.

Desfez-se o sonho para todo o sempre!
Para sempre! Deus meu!,
A neve vai caindo
na campina deserta
de minha vida,
e teme
a ilusão, se vai longe,
que se gele ou se perca.

Como, me disse a água,
que se desfez o sonho para sempre!
É o sonho infinito?
A neblina o sustenta,
e a neblina é tão só
o cansaço da neve.

Meu ritmo vai contando
que se desfez o sonho para sempre.
E na tarde brumosa
meu coração aprende
a tragédia outonal
que as árvores suportam.

Federico Garcia Lorca



Amora do Tronco Com o Tronco Gris

Amora de tronco gris,
da um cacho para mim.

Sangue e espinhos. Aproxima-te.
Se me queres, querer-te-ei.

Deixa teu fruto de verde e sombra
na minha língua, amora.

Que longo abraço te daria
na peneumbra de meus espinhos.

Amora, aonde vais?
Vou buscar amores que tu
não me dás.

Lorca



Encontro

Nem tu nem eu estamos
com disposição
de nos encontrar.
Tu... pelo que já sabes.
Eu a quis tanto!
Segue esta veredazinha.
Nas mãos,
tenho os buracos
dos cravos.
Não vÊs como me estou
dessangrando?
Não olhes nunca para trás,
vai devagar
e reza como eu
para São Caetano,
que nem tu nem eu estamos
com disposição
de nos encontrar.

Lorca



Mon Dieu (Tradução)

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Meu namorado!
Um dia, dois dias, oito dias ...
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Para mim ...

O tempo de se adorar
De se dizer
O tempo de se produzir
Lembranças
Meu Deus! Oh sim, meu Deus!
Deixe-o comigo
Preencher um pouco
Minha vida ...

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Deixe-o comigo
Mais um pouco
Meu namorado!
Seis meses, três meses, dois meses ...
Deixe-o comigo
Por somente
Um mês ...

O tempo de começar
Ou de terminar
O tempo de iluminar
Ou de sofrer
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
Mesmo que esteja errada
Deixe-o comigo
Um pouco ...
Mesmo que esteja errada
Deixe-o comigo

Mais um pouco

Piaf (Intérprete)

Um comentário:

  1. Há de se ver o ABST- RATO inscrito no CONC- RETO.

    A mais antiga verdade da v-i-d-a - O exagero do desejo.

    Ne’mesmo a ingratidão – esta exegese da paixão –

    Impedirá da expressão extravasar o silên-cio.

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Por um 2010 mais romântico!

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