04 maio 2008

Dor de Cotovelo


XIII

Túlio: há plavras escuras,
Guardadas, duros ramos
Dentro das arcas. Roxura
Por exemplo. É ânsia.
Convém lembrá-las
Porque me faço mordente
Nesta minha armadura,
Soberbosa, cansada
Do teu silêncio
E do laivoso das gentes.
Há palavras escuras.
Hederoso, por exemplo.
É abundante de heras.
Habena, que é chicote.
E há uma palavra rara
Em milenar repouso
No teu peito duro.
Convém lembrá-la, Túlio.
Do amor é que te falo.

Acorda a tua palavra.
Usa o chicote
Antes que eu me faça escura.


Hilda Hilst


XV

Amada vida: a dádiva de ser, de úlio
A única paisagem, inumerável, única a seus olhos,
É o que pede o poeta à amada vida. Que importa
A Túlio o contemplar os frutos, romãs, ou mesmo
Rosas, se por amor a ele me transmuto, e posso
A um tempo só, ser flor e fruto, e além do mais
Poeta, prodigiosa?
Que importa a Túlio o mergulhar nas águas
Se por amor a ele, maré alta e praia
A cada dia me faço, dadivosa? Que importa ao amado
O deslizar das horas, o passo nos caminhos,
O olhar diante do Tempo, umas duras planícies,
E bulbos e romãs e rosas fenecendo
Se por amor a ele, me faço amor e morte?


Hilda Hilst

Eu aqui



VII
Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navio,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo

Também isso te devo.

Hilda Hilst

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